IA para responder clientes no WhatsApp: o que a OAB deixa ela responder

Por Inti Rodrigues, sócio e CTO da enxut ·

Domingo, 22h. O advogado testa uma IA no próprio WhatsApp, pergunta “pedi demissão, tenho direito ao FGTS?” e recebe em dez segundos uma resposta segura, com artigo de lei e tudo. A resposta é boa, e o problema é ela existir.

Dá para usar IA para responder clientes no WhatsApp. O limite está na consulta jurídica. O anexo do Provimento 205 da OAB aceita o chatbot que facilita a comunicação. E não admite o uso indiscriminado de aplicativo para responder automaticamente consulta jurídica de quem ainda não é cliente. O ponto difícil é o “tenho direito?” chegando a uma IA feita para ser útil.

O Provimento 205 permite o chatbot e limita a resposta automática à consulta jurídica

O verbete se chama “Chatbot” e está no Anexo Único do Provimento 205/2021, que regula o marketing jurídico. A utilização é permitida “para o fim de facilitar a comunicação ou melhorar a prestação de serviços jurídicos”. O verbete dá três exemplos. O chatbot no site serve “para responder as primeiras dúvidas de um potencial cliente” ou “para encaminhar as primeiras informações sobre a atuação do escritório”. E serve “para coletar dados, informações ou documentos”. O site entra como exemplo, e a permissão do começo do verbete não cita canal nenhum.

O limite vem na mesma frase. O chatbot não pode “afastar a pessoalidade da prestação do serviço jurídico, nem suprimir a imagem, o poder decisório e as responsabilidades do profissional”.

Outro verbete do mesmo anexo, “Aplicativos para responder consultas jurídicas”, fecha a porta que sobrou. “Não é admitida a utilização de aplicativos de forma indiscriminada para responder automaticamente consultas jurídicas a não clientes”. O verbete diz por quê: esse uso suprime a imagem, o poder decisório e as responsabilidades do profissional, e representa “mercantilização dos serviços jurídicos”.

A enxut é uma empresa de software, não um escritório. Esta é uma leitura da norma para orientar a decisão, que é do advogado. Os dois verbetes ficam separados no anexo e chegam juntos na mesma conversa.

A dúvida sobre o endereço e a pergunta sobre o FGTS chegam na mesma conversa

Quinta, 21h40. A mesma pessoa manda três mensagens seguidas. Na leitura da enxut, cada uma cai num lugar diferente da regra.

  • “Vocês atendem trabalhista? Onde fica o escritório?” São dúvidas sobre o escritório, não sobre o direito de quem pergunta. Cabem em “encaminhar as primeiras informações sobre a atuação do escritório”.
  • “Saí do emprego na sexta, posso mandar a foto da carteira de trabalho?” Receber a foto do documento é o “coletar dados, informações ou documentos” do mesmo verbete.
  • “Pedi demissão, tenho direito ao FGTS?” Ou à pensão, ou ao BPC. Aqui a pergunta é o caso concreto de quem ainda não é cliente. Responder no automático, sem critério, a esse tipo de pergunta é o que o verbete dos aplicativos não admite. A IA que atende bem diz que essa resposta é do advogado.

A IA do teste de domingo recebeu essa mesma pergunta e respondeu com gosto, porque ninguém do escritório tinha dito a ela onde parar.

O que o escritório decide antes de ligar uma IA no WhatsApp

Uma IA genérica responde o que perguntarem a ela. Quem diz onde ela para é o escritório, numa lista de decisões que só ele toma:

  • quais perguntas a IA faz antes de passar a conversa adiante;
  • o que ela diz quando a pergunta é sobre o direito de quem escreveu;
  • em que momento alguém da equipe assume;
  • quem relê as conversas e com que frequência.

O anexo marca o limite, e nenhuma dessas respostas vem pronta nele. Com tudo escrito, sobra uma pergunta.

“E se a IA responder o FGTS mesmo assim?”

A gente acha que vai acontecer em algum grau, com qualquer IA. Inclusive com a que recebeu a instrução de não orientar. Uma pergunta direta às 22h é tentação para qualquer coisa treinada para ser útil.

A pergunta séria é quem percebe. Na leitura da enxut, é aí que entra o limite do verbete do chatbot: a IA não pode suprimir as responsabilidades do profissional. Por isso o último item da lista pesa mais que os outros. Alguém da equipe relê as conversas e corrige a resposta e a instrução.

Desligar a IA evita esse risco e cria outro.

Desligar a IA por medo da regra também tem custo

Nos escritórios que a enxut atende ou já atendeu, 26% das primeiras mensagens chegam antes das 9h, depois das 18h ou no fim de semana (2.297 primeiras mensagens). Sem ninguém para responder, essa mensagem espera o escritório abrir. Quem escreveu, talvez não. Nada impede essa pessoa de procurar outro escritório enquanto isso.

O anexo não admite a resposta automática e indiscriminada à consulta jurídica de quem não é cliente, e nenhum verbete manda essa pessoa esperar o escritório abrir. O caminho até essa mensagem, da captação de clientes na advocacia ao anúncio para quem busca advogado, está em outros dois textos.

A regra de bolso cabe numa linha: a IA pergunta tudo o que o advogado precisa saber e responde só o que a recepção responderia.

O agente da enxut atende e deixa a orientação com o advogado

O agente de IA de atendimento começa pelo limite do anexo. Ele não é chatbot de menu: responde quem escreveu a qualquer hora, faz as perguntas que o escritório definiu e marca a reunião na sua agenda. Segue a instrução do escritório, que deixa a orientação jurídica com o advogado, e entrega o resumo e a conversa inteira para a equipe reler. A gente vende IA e mesmo assim acha que a orientação jurídica continua sua.

Perguntas frequentes

A regra vale para quem já é cliente do escritório?

O verbete dos aplicativos fala em consultas jurídicas “a não clientes”. Na leitura da enxut, para quem já assinou continua valendo o verbete do chatbot, com o mesmo limite. A orientação sobre o processo segue com o advogado responsável.

Precisa avisar que quem responde é uma IA?

O Provimento 205 não tem artigo nem verbete sobre isso. Na leitura da enxut, se e como avisar é decisão do escritório, dentro do limite do verbete do chatbot.

A IA pode disparar mensagem para uma lista de contatos?

O anexo do Provimento 205 diz que o envio de comunicações a uma coletividade, a mala direta, “é expressamente vedado”. A exceção são clientes, pessoas de relacionamento pessoal e quem pediu ou autorizou o contato antes do envio, e mesmo para eles sem caráter mercantilista, sem captar clientela e sem oferecer serviço. A regra vale com IA ou sem ela.

De quem são os dados que a IA coleta no WhatsApp?

Pela LGPD, o controlador é a pessoa a quem competem as decisões sobre o tratamento dos dados (art. 5º, VI), e o operador é quem trata os dados em nome dele (art. 5º, VII). Na leitura da enxut, no atendimento do escritório o controlador é o escritório, e a empresa que fornece a ferramenta de IA é a operadora. Vale perguntar ao fornecedor onde os dados ficam e se são usados para treinar algum modelo.

Uma IA que atende quem escreveu e deixa a orientação com o advogado.

O agente de IA de atendimento responde o WhatsApp do escritório a qualquer hora, faz as perguntas que o escritório definiu e marca a reunião na sua agenda. A primeira semana é grátis.